O trabalho com as situações mais essenciais do cotidiano, como nascimentos, morte, casamento e separações transformaram o nosso olhar para as dores e dificuldades que envolvem as relações humanas e nos mostram caminhos possíveis em direção à paz e ao equilíbrio, mesmo nos momentos mais difíceis.
Entre muitas dores, um dos grandes desafios é passar por uma separação e um divórcio com equilíbrio, principalmente, nesse momento, dirigir o olhar e preservar os filhos de se colocarem ou serem colocados no meio do conflito entre os pais.
Em uma ação de divórcio, a solução jurídica relativa aos filhos menores pode ser simplesmente definir qual dos pais ficará com a guarda ou como será o regime de convivência e até mesmo qual será o valor da pensão. É o que usualmente se faz. Mas nada disso vale ser visto e dada uma sentença se os pais continuarem se atacando. Independentemente do valor da pensão ou de quem será o guardião, os filhos crescerão como se eles mesmos fossem alvo do ataque dos pais.
Uma ofensa do pai contra a mãe ou da mãe contra o pai são sentidas pelos filhos como se eles mesmo fossem as vítimas dos ataques, mesmo que não percebam. Sim, porque sistemicamente os filhos são profundamente vinculados a ambos os pais biológicos. São constituídos por eles, por meio deles receberam a vida.
O filho não existe sem o pai ou sem a mãe e, seja qual for o destino que os filhos construírem para si, será uma sequência da história dos pais.
Por isso é que, mesmo que o filho manifeste uma rejeição ao pai – porque, por exemplo, o pai abandonou a família ou porque não paga pensão – toda essa rejeição se volta contra ele mesmo, inconscientemente. Qualquer ofensa ou julgamento de um dos pais contra o outro alimenta essa dinâmica, prejudicial sobretudo aos filhos. O mesmo ocorre quando o Juiz toma o partido de um dos pais contra o outro, reforçando o conflito interno na criança.
A solução sistêmica, para ser verdadeira, precisará primeiramente excluir os filhos de qualquer conflito existente entre os pais, para que os filhos possam sentir a presença harmônica do pai e da mãe em suas vidas.
O Juiz, por sua vez, antes de decidir, deve considerar essa realidade e ter em seu coração as crianças e ambos os pais, além de outras pessoas eventualmente envolvidas, sem julgamentos de qualquer tipo. Inclusive os advogados podem, com essa mesma postura – sem julgamento – facilitar uma conciliação entre as partes (que constituem um só sistema). E caso se faça necessária uma solução imposta pelo Poder Judiciário, ela, com toda certeza, será mais bem recebida por todos, já que todos sentirão que foram vistos e considerados pelo Juiz.
Que fique bem claro: isso não impede que o pai e a mãe discutam as questões necessárias, judicialmente ou não, desde que isso se dê entre eles, sem o envolvimento dos filhos, nem que o juiz decida as demandas que lhe forem postas.
Conclusão
Quando um casal que está divorciando possui filhos dessa relação, o impacto pode ser ainda maior quando o respeito e o equilíbrio não existem, seja durante o processo de divórcio ou mesmo na relação posterior que se seguirá. Como você viu, até mesmo a postura do Juiz e dos advogados, mas principalmente a postura interna dos pais, pode refletir e gerar dor nos filhos.
Enfrentar um divórcio, além das questões jurídicas, envolve a passagem de um luto e se deparar com uma dor. No entanto, o processo pode ser mais leve quando feito com equilíbrio e respeito, principalmente quando se adota uma postura sistêmica. Assim, se preserva um relacionamento saudável entre o homem e a mulher e os filhos conseguem permanecer em paz, apenas no lugar que lhes cabe.
